No começo, eram só notícias vindas de uma região distante. Atraíam pela crueza do que revelavam: uma associação brutal entre grileiros, madeireiros e o tráfico. Autoridades ameaçadas de morte. Pistoleiros se enfrentando em carnificinas que deixavam dezenas de corpos ao relento. Trabalhadores reduzidos a uma servidão que beirava a escravidão.
Mas o que mais fascinava Aura, o que a fazia recortar e guardar as páginas policiais com dedos quase ávidos, era outra coisa. Homens que mantinham meninas como propriedade. Pais que submetiam suas filhas diante das próprias mães. Um cenário de terror.
Não para ela. O que lia nos jornais e via nos noticiários de TV não a aterrorizava; a hipnotizava. Sussurrava a algo no seu âmago, algo adormecido que agora se revolvia no fundo das suas entranhas, despertado por aquele caldeirão de violência e impunidade. Era uma sensação que ela, para seu próprio e secreto alívio, não precisava esconder de Ariadne, sua filha mais velha. Josy, a outra filha, observava tudo com um silêncio denso, que podia ser tanto conivência quanto reprovação.
Aquelas notícias funcionavam como um antídoto. Tiravam a poeira dos móveis do apartamento, quebravam a monotonia daquela vida minúscula na goiana Piranhas, onde as almas se encolhiam, todos se conheciam, todos se vigiavam, todos se asfixiavam em um consenso abafador…

Ainda bem que seu caçula conseguira escapar. A profissão de técnico em pecuária o levara para o Pará, para outras terras, longe daquele cerrado sufocante. Os olhos de Aura brilhavam de orgulho. Ele, sim, estava livre.
Mas seus olhos brilhariam de um modo totalmente novo, ofegante e quase incrédulo, quando, certo dia, o telefone tocou e a voz do filho, do outro lado da linha, informou: “Mãe, consegui. Estou morando em São Félix do Xingu, no sul do Pará”.
Aura ficou sem ar. São Félix do Xingu. O nome soou como uma invocação. Ela não acreditou. Foi até o seu diário, folheou as anotações, os recortes de jornal. Seria verdade?
Era. Seu menino estava no coração daquele território de estupros, incesto e escravidão, onde o preço de uma vida valia menos que uma dívida de bar ou um litro de gasolina. Procurou Ariadne às pressas. Não precisou de muitas palavras. Compartilhou com a filha aquele êxtase perverso, aquela esperança torcida. E as duas, com a cumplicidade de quem finalmente vê um plano se concretizando, trataram de transformar o desejo obscuro em passagem de ônibus.
Logo estavam com as malas prontas. E partiram.
(págs. 11 e 12 do livro “Seja feita a Vossa Vontade, Omnia et Omnes”, de Dora P. Heylworth, Editora Obra-Prima)
