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Euclides da Cunha teve que lidar com notícias falsas ao escrever Os Sertões

Há 155 anos, no dia 20 de janeiro de 1866, nascia Euclides da Cunha, jornalista e escritor, cuja obra mais conhecida é o livro Os Sertões, publicado pela primeira vez em 1902. Os Sertões é considerado um marco também para o jornalismo brasileiro (e não apenas para a literatura). Um de seus méritos, além da inovação dos caminhos narrativos para história de não-ficção, foi se contrapor a notícias falsas que eram publicadas em jornais da Região Sudeste sobre a Guerra de Canudos. Corria pelos veículos e pela opinião pública uma falsa ideia de que a revolta dos sertanejos era uma tentativa de restabelecer a monarquia na década seguinte à da proclamação da República.

A professora Walnice Galvão, docente emérita da Universidade de São Paulo, investigou os discursos dos jornais da época em seu livro No Calor da Hora. Essas versões, inclusive, trouxeram uma ideia equivocada para o próprio Euclides da Cunha. “Eu percebi, com clareza, como a mídia jornal influenciou o país. Convenceram a opinião pública brasileira de que Canudos era uma conspiração restauradora da monarquia, e todo mundo acreditou. Essas notícias falsas estavam nos editoriais, reportagens e até nas caricaturas”, diz a ensaísta e crítica literária, lembrando que os jornais, em tempos sem rádio ou TV, faziam o serviço principal de comunicação.
 
O professor Leopoldo Bernucci, da Universidade da Califórnia, EUA, também chama a atenção sobre o avanço do que hoje chamamos de fake news (notícias falsas) à época, mas destaca que Euclides da Cunha não conseguiria avançar nas pesquisas que fizeram com que concluísse Os Sertões sem o apoio dos jornais impressos. “Ele tinha também uma ligação muito forte com os jornais e eles lhe serviram de fontes de informação importantes. Percebi que há diferenças de datas e números em documentos. Uma nova pesquisa que pode ser feita é comparar os documentos para precisar dados sobre eventos históricos”.
 
Para o professor de direito Arnaldo Godoy, que também é pesquisador em literatura, os escritos de Euclides, bem como a própria trajetória trágica pessoal do escritor, são capazes de dar início a estudos sobre notícias falsas. “Considero muito importante tentar compreender o papel da comunicação na construção ou na desconstrução de um criminoso”, afirmou.

Mistura de jornalismo e literatura

Para o professor de jornalismo Edvaldo Pereira Lima, um dos principais pesquisadores de jornalismo literário do país, a obra Os Sertões é marco inquestionável do gênero no país. Ele contextualiza que, em outras coberturas de conflitos bélicos de guerra civil nos Estados Unidos e na África (por parte de correspondentes europeus), existiam iniciativas pioneiras de se amadurecer essa escola narrativa que excedesse a ideia de uma notícia crua. “Isso tem relação com a dificuldade de transmitir a intensidade de um campo de batalha de uma forma fria ou preso apenas à informação”, destaca.
 
No Brasil, o primeiro caso é na obra de Euclides. “Muito mais do que informar, Euclides procura trazer uma leitura completa de compreensão de realidade, trazendo as múltiplas causas e a atenção principal na figura humana. Os Sertões faz com que o leitor compreenda de forma integral aquele acontecimento, em suas diferentes dimensões”, afirma o professor.
 
Pereira Lima explica que, no jornalismo literário, as pessoas são tratadas em profundidade e que, na obra euclidiana, há uma leitura quase psicológica. “Jornalismo literário é literatura também. Entendo como literatura tanto a ficção como a não-ficção. Um estilo pautado pela literatura do real. O que caracteriza a literatura é a qualidade e a excelência do nível narrativo. E isso é marcante com Euclides por causa de sua sensibilidade ao trazer aspectos sutis da realidade”.

Esses aspectos servem para denunciar, investigar e ser caminho inspirador para a transformação social e humana. “Ler a obra é uma experiência de sensibilização para dar novo significado à realidade. Uma grande experiência de transformação de consciência para os cidadãos brasileiros”, conclui.

Fonte: Agência Brasil. Foto: Cadáveres nas ruínas de Canudos. Coleção Flávio de Barros/Guerra de Canudos – Acervo Museu da República / Instituto Brasileiro de Museus / Ministério do Turismo

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