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Colonialismo e globalização distorcem a compreensão que temos da história da vida na Terra

Nossa compreensão da história da vida na Terra é tendenciosa para os países mais ricos, alerta um estudo do registro fóssil. A análise revela que 97% dos dados paleontológicos vêm de cientistas de países de alta e média rendas, como Estados Unidos, Alemanha e China. “Eu sabia que ia ser alto, mas não pensei que seria tão alto. Foi surpreendente”, diz Nussaïbah Raja, paleontóloga da Universidade Friedrich Alexander de Erlangen-Nuremberg, em Erlangen, Alemanha, que co-liderou o estudo. O viés do registro fóssil em favor dos países ricos pode distorcer a compreensão dos pesquisadores sobre a história da vida, alertam ela e seus colegas. O artigo foi publicado em 30 de dezembro de 2021 na Nature Ecology & Evolution.

Raja trabalhou com a co-líder do estudo Emma Dunne, paleobióloga da Universidade de Birmingham, Reino Unido, e seus colegas para analisar dados do Paleobiology Database (PBDB), um repositório amplamente utilizado que contém mais de 1,5 milhão de registros fósseis extraídos de quase 80.000 publicações. A equipe examinou a autoria de 29.039 artigos indexados no PBDB e que foram publicados entre 1990 e 2020.

Mais de um terço desses registros incluíam autores baseados nos Estados Unidos; depois vinham Alemanha, Reino Unido, França e Canadá. A análise incluiu fósseis encontrados no país de estudo dos pesquisadores ou no exterior. Enquanto os pesquisadores dos EUA trabalharam quase igualmente em achados fósseis domésticos e internacionais, os de países europeus estudaram desproporcionalmente os fósseis encontrados no exterior. Por exemplo, 86% dos artigos indexados pelo PBDB de autoria de cientistas baseados na Suíça registraram fósseis descobertos em outros lugares.

Laços coloniais

A análise também descobriu que os laços coloniais perdidos décadas atrás ainda estão afetando a paleontologia. Um quarto da pesquisa paleontológica em Marrocos, Tunísia e Argélia – ex-colônias francesas – foi feita por cientistas baseados na França. Além disso, 10% dos artigos que descrevem fósseis na África do Sul e no Egito incluíam pesquisadores do Reino Unido, e cientistas da Alemanha contribuíram com 17% dos artigos sobre fósseis da Tanzânia.

Em muitos casos, tais esforços não envolveram colaboradores locais – uma prática conhecida como “ciência do paraquedas”. A equipe de Raja e Dunne desenvolveu um ‘índice de paraquedas’ que mede a proporção de dados paleontológicos de um país obtidos por equipes estrangeiras sem ter cientistas locais como coautores. Essa proporção foi a mais alta para Mianmar e República Dominicana. Fósseis envoltos em âmbar altamente cobiçados de ambos os países os tornaram especialmente vulneráveis ​​à “ciência do paraquedas”.

A enorme influência dos países ricos na paleontologia pode levar a uma visão distorcida da história da vida, dizem os pesquisadores. Especialistas que estudam tendências em larga escala em paleontologia usando recursos como o PBDB estão cientes de que o registro fóssil é tendencioso de diversas maneiras, incluindo a idade e o tipo de rocha em que os fósseis sobrevivem. Mas pouca consideração é dada aos preconceitos dos próprios colecionadores, diz Raja. “Falamos sobre fatores físicos que afetam o registro fóssil, mas poucas pessoas falam sobre fatores humanos”, destaca.

As conclusões do estudo são importantes, mas infelizmente não são uma surpresa, diz Mark Uhen, paleontólogo de vertebrados da Universidade George Mason em Fairfax, Virgínia, e presidente do comitê executivo do PBDB. “Estar ciente de um problema é o primeiro passo para tentar resolvê-lo”, diz ele.

Pedro Godoy, paleontólogo da Universidade Federal do Paraná em Curitiba, Brasil, diz que quantificar o viés do campo para países de alta e média renda é importante porque pode revelar padrões inesperados, como a escala da paleontologia de paraquedas . “O conhecimento científico não deve ficar restrito a pequenas partes do planeta e não deve ser produzido por pesquisadores em poucos países”, acrescenta. “A ciência certamente perde qualidade por ser tão restritiva”, assinala.

Não é apenas a paleontologia que sofre como resultado da “ciência do paraquedas”, diz Juan Carlos Cisneros, paleontólogo da Universidade Federal do Piauí em Teresina, Brasil. “As descobertas de fósseis podem apoiar as economias locais, atraindo turistas para museus, por exemplo. Esses benefícios serão perdidos se cientistas estrangeiros realocarem os fósseis”, acrescenta.

Imagem em destaque: Crédito – Pexels.

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