No ano de seu centenário, obra completa de João Cabral de Melo Neto será reeditada com a inclusão de textos inéditos do poeta

O início de 2020 marca a celebração do centenário de João Cabral de Melo Neto, poeta e diplomata que ocupou a 37ª cadeira da Academia Brasileira de Letras (ABL) até 1999. O aniversário exato aconteceria hoje, 9 de janeiro, mas as comemorações se estenderão nacionalmente por todo o ano, culminando com o lançamento de novas edições da Obra completa, uma em poesia e outra com os textos em prosa. Ambas as publicações contarão com um importante material inédito descoberto durante uma pesquisa de doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG): são mais de 40 poemas e alguns artigos de jornal, programa de rádio e conferências.

A pesquisadora Edineia Rodrigues Ribeiro, egressa do Programa de Pós-graduação em Letras-Estudos Literários (Poslit), chegou ao conteúdo em uma pasta do acervo do autor, sob os cuidados do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, na Casa de Rui Barbosa. Dezenas de textos foram identificados pela especialista como nunca antes publicados, sendo que, nos volumes dos próximos lançamentos, será inserida apenas a parte que já recebeu a confirmação de originalidade do também poeta e imortal da ABL Antonio Carlos Secchin. Há ainda novas versões de poemas já conhecidos e vasto conteúdo sem sinais de interferência ou anotações de terceiros.

Dentre a parte já transcrita, a pesquisadora destaca a importância dos poemas inéditos, os quais define como obras “à altura da aclamada poesia cabralina”. A especialista esclarece: “não se trata de versos inacabados e rechaçados por um poeta em final de carreira!”. A prosa também recebe atenção especial de Edineia, que ressalta a conferência A poesia brasileira, na qual João Cabral traz uma análise da literatura nacional em meados dos anos 1950.

Os textos em prosa, aliás, são um caso especial na história da arte cabralina. Apesar de a nova Obra completa dedicar uma de suas duas edições integralmente a tal modalidade, o escritor é amplamente reconhecido por seus versos, sendo a prosa pouco difundida e comentada. “O João Cabral se definia como um antilírico, um poeta crítico”, pontua Edineia Ribeiro. Como lembra a pesquisadora, em seu depoimento para a posteridade no Museu da Imagem e do Som o poeta chegou a afirmar que escrevia poesia enquanto se preparava para ser crítico. “Como um dos mais cosmopolitas dos nossos escritores, João Cabral escreveu sobre muitos artistas brasileiros e de outras nacionalidades”.

Além de poema e prosa, foram encontradas publicações em jornais que relevam uma outra faceta do poeta. “É importante pensarmos que a colaboração de um escritor com uma vida intelectual intensa e longa, como foi João Cabral, não se encerra apenas naquilo que chega às nossas mãos por meio dos livros já publicados”, reforça Edneia Ribeiro. A especialista tem ainda expectativa de descobrir novos textos do tipo dentre o vasto acervo doado para o Arquivo Museu de Literatura Brasileira, que podem revelar detalhes sobre o período de atuação do escritor em jornais brasileiros após o afastamento do Itamaraty, durante os primeiros anos da década de 1950.

Dos poemas para amigos aos achados

A descoberta do amplo material inédito do poeta partiu de um desdobramento inesperado do doutorado de Edineia Ribeiro, que teve início com uma tentativa de verificação da poesia de circunstância no livro Museu de tudo. Segundo ela, a poesia de circunstância, além de ser vista como um gênero menor da Literatura, sofre com uma dificuldade classificatória. Qual seriam os limites para tal definição? A escolha de temas do cotidiano? A vinculação a qualquer contexto externo? Para resolver o impasse, foram separados somente os poemas de Cabral compostos para amigos, considerando-se o número significativo de textos nos quais outros artistas são homenageados pelo autor.

Em busca de cartas e relatos pessoais que a auxiliassem na compreensão dos vínculos existentes entre João Cabral e os amigos com as quais conviveu, Edneia passou a consultar o espólio do autor, na Fundação Casa de Rui Barbosa. A extensa pesquisa no local começou em 2016 e terminou em 2018. Já no primeiro ano, a então doutoranda se deparou com conteúdo inédito – três poemas, de dezenas de pequenos textos em prosa sobre intelectuais e um documento de quase trinta laudas datiloscritas.

Logo a pesquisa começou a adquirir novas facetas, motivadas pelo interesse de análise dos textos descobertos. Como coloca em sua tese, “as cartas que motivaram a ida a Casa Rui adquiriram papel secundário diante das possibilidades que o material, listado em um inventário analítico de quase 600 páginas, tinha a oferecer”. O ápice dos achados ocorreu no final de 2018, quando dezenas de poemas inéditos, alguns manuscritos de difícil entendimento e outros datiloscritos e bem organizados, foram identificados. Alguns dos textos continham ainda anotações do próprio João Cabral.

Surpreendentemente, um dos arquivos chegava a tematizar seu objeto de estudo inicial, a poesia de circunstância. E as análises originalmente esboçadas foram finalizadas, concluindo pelo entrecruzamento de poesia de circunstância e poesia crítica em Museu de tudo, a partir dos poemas que homenageiam amigos literatos. A tese Um museu de duas faces: poesia de circunstância em João Cabral de Melo Neto, sob orientação do professor Sérgio Alcides Pereira do Amaral, foi defendida em abril de 2019. Mas o levantamento dos inéditos gerou uma reflexão maior, sobre a necessidade de se reeditar a obra completa de João Cabral de Melo Neto.

Publicações e homenagens

Organizado em volumes de poesia e prosa por Antônio Carlos Secchin e Sérgio Martagão, respectivamente, e com colaboração de Edineia Ribeiro, agora o material passa por preparações finais antes da definição da data de lançamento. Também serão integrados aos volumes dois livros póstumos de Cabral, Ilustrações para fotografias de Dandara (2011) e Notas sobre uma possível ‘A casa de farinha’ (2014), que não estavam nas versões anteriores da obra completa.

As comemorações do centenário contarão ainda com uma fotobiografia, uma biografia, um livro de entrevistas, uma coletânea bilíngue de poemas português-espanhol e uma homenagem no IX Festival Literário de Araxá (Fliaraxá), em julho.

Um pouco do nosso poeta

João Cabral de Melo Neto nasceu em 9 de janeiro de 1920, na rua da Jaqueira, no Recife. Aos quinze anos é o camisa 5 do Santa Cruz Futebol Clube, e aos dezoito frequenta o Café Lafayette, ponto de encontro da intelectualidade recifense. Chega ao Rio de Janeiro com a família em 1940, e dois anos depois lança seu primeiro livro, Pedra do sono, numa edição custeada por ele mesmo, com tiragem de pouco mais de trezentos exemplares.

A carreira diplomática começa em 1945, quando entra para o Itamaraty, chegando a embaixador. João então mora em Barcelona, Sevilha, Lisboa, Marselha, Madri, Berna, Quito… e os locais por onde viveu e viajou estão presentes em sua obra. Escreve clássicos como O cão sem plumas e Morte e vida severina , e recebe prêmios como o Camões e o Neustadt International.

Fica conhecido por desprezar o lirismo, a retórica, adotando um estilo mais seco e conciso. Cabral compara o poeta ao escultor, que incessantemente corta a pedra até que a escultura surja de dentro dela. Falece em 1999, deixando uma obra de força descomunal. Hoje, João Cabral completaria cem anos, e fica aqui nossa saudade e homenagem a ele.

Um poema inédito

O DIALETO

No Recife havia um dialeto-
família, o Gonsalves de Melo.
Nele falava minha mãe
e escrevia seu primo Gilberto.

Ele me aflora quando falo
distraidamente ou sem ecos.
Nele nunca soube escrever:
deve escrever-me um super-ego.

Depois de anos-luz de outras falas,
de viver de línguas alheias,
p. ex, o esperanto carioca,
que menos que fala, canteia,

caio de volta no dialeto
com oito dias no Recife:
volta na fala, que na escrita
o super-ego não desiste

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