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A linguagem como fator de dominação

Trecho do livro A Linguagem Escravizada – Língua, história, poder e luta de classes. Autores: Florence Carboni e Mário Mestri. Editora Expressão Popular.

Para impor sua hegemonia política e social, os colonizadores tinham que manter o domínio ideológico, cultural, religioso e, sobretudo, linguístico. Em 1951, explicando tal procedimento, de modo preconceituoso e racista, Serafim da Silva Neto ponderava: “Os portugueses e seus descendentes jamais abririam mão do prestígio que lhes conferiam a situação de dominadores, substituindo a língua própria”, ainda mais que o “grupo superior ou dominante estava associado ao uso do português e à pele clara, enquanto o grupo socialmente inferior estava ligado à pele escurecida e ao uso do crioulo e do tupi…” (Neto: 1951, p.77).

Para que os luso-brasileiros reinassem, entronizou-se o português como língua colonial e reprimiram-se os falares extraeuropeus e crioulos e suas influências na língua dos colonialistas. O português que se impôs foi o das regiões e dos segmentos dominantes metropolitanos já que, no Reino, realizava-se igual discriminação dos falares populares, fortemente regionalizados – Estremadura, Douro, Minho, Alentejo, Lisboa etc. Na colônia, apenas padres, funcionários, letrados e engenheiros dominavam convenientemente essa versão do português.

Foram incessantes a discriminação e a subalternização do tupi. Nas capitais, aos domingos, durante os sermões, caso houvesse um só cristão que desconhecesse o tupi, o sermão realizava-se em português, ainda que boa parte dos presentes não compreendesse essa língua. Em 1730, ao se lamentar que os “índios” descidos aprendiam o tupi e não o português, um governador do Maranhão recomendava aos jesuítas que aplicassem “palmatoadas” aos jovens nativos que falassem aquela língua (Neto: 1951, pp. 69-73). Logo que possível, a administração impulsionou política glotocida, fortemente apoiada no ensino. Em 1757, após a expulsão dos jesuítas, Pombal determinou o uso “obrigatório” “da língua portuguesa no Brasil” (Elia: 1979, p. 193).

Quarenta anos mais tarde, no Espírito Santo, o Senado da Câmara ordenava que “só se falasse a língua portuguesa, sob pena de prisão”. Não sabemos se a determinação referia-se ao uso da língua metropolitana por todos os habitantes da capitania ou somente pelos vereadores, quando das discussões! A resolução registra o efeito parcial da medida pombalina (Neto: 1951, p. 68).

Livro defende que as línguas não são neutras nem eternas nem estão acima das classes sociais.

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